Frevo pode permanecer em seu endereço até 2017; veja em primeira mão trecho de livro sobre tradicional casa paulistana

ANTONIO FARINACI
Colaboração para o UOL

  • Paulo Bau/UOL

    A equipe do Frevo, na Rua Oscar Freire: Olival de Jesus Leal (sentado), Estevan Jose da Silveira, o "Português"), Helio Silva Santana, o "Baixinho" e o gerente Valdir Pereira dos Santos

    A equipe do Frevo, na Rua Oscar Freire: Olival de Jesus Leal (sentado), Estevan Jose da Silveira, o "Português"), Helio Silva Santana, o "Baixinho" e o gerente Valdir Pereira dos Santos

Os paulistanos fãs de beirute podem ficar sossegados. Pelo menos por enquanto, a lanchonete e restaurante Frevo não deve sair de seu tradicional endereço na rua Oscar Freire, em São Paulo.

A notícia de que o mais antigo endereço do estabelecimento, com mais de 50 anos, fecharia suas portas circulou há duas semanas. Chegou a ser organizado um "beirutaço", passeata em protesto contra o fechamento, organizada por clientes, que atraiu cerca de 300 pessoas ao local.

"O edifício em que está localizado o Frevo está em processo de venda", explicou ao UOL Receitas e Restaurantes Roberto Frizzo, 66, proprietário da lanchonete. "Mas, mesmo que seja vendido, temos contrato até 2012. Depois disso, ainda temos proteção legal por mais cinco anos, para permanecer no local", garante o empresário, que promete que vai "fazer de tudo" para manter a casa no endereço em que está.

"Eu me sinto responsável pelo restaurante que é da cidade", diz. "Ainda não sabemos nem o valor pelo qual o imóvel está sendo vendido, estamos aguardando uma notificação com os detalhes da negociação", explica Frizzo, que é também vice-presidente do clube Palmeiras.

O Frevo foi fundado foi em 1956 pelo empresário Geraldo Modesto de Abreu, padrasto do dono atual. "Ele percebeu que, na época, não havia muitas opções de restaurantes ali na região da Augusta", conta Frizzo. "Os lugares ficavam no Centro, e na galeria em que ele montou o Frevo, ficava também o Cine Paulista", relembra.

Antes do Frevo, Modesto de Abreu havia sido proprietário do Café das Folhas, instalado no edifício em que funcionavam os jornais "Folha da Manhã", "Folha da Tarde" e "Folha da Noite", na Barão de Limeira, hoje endereço da Folha de S.Paulo.

Nacionalista
Segundo Frizzo, o nome da lanchonete foi escolhido para se diferenciar das concorrentes, todas com nomes americanizados. "Na época em que o Frevo foi inaugurado, nome de lanchonete era tudo em inglês, e meu padrasto era muito nacionalista", conta. "Ele achava que devia valorizar coisas brasileiras, por isso o nome 'Frevo'. Foi uma resistência dele contra a invasão cultural americana. Às vezes, chegam clientes de Pernambuco e perguntam se o dono é pernambucano, mas o motivo do nome é outro."


Um dos lanches consagrados pelo estabelecimento foi o beirute (sanduíche feito com pão sírio), hoje comum no cardápio de diversas lanchonetes da cidade. Frizzo não reivindica crédito pela invenção do sanduíche, mas por seu aperfeiçoamento.

"O beirute foi inventado por uma casinha que servia sanduíche, lá "pros" lados da alameda Santos com a rua Cubatão. E era um bauru servido no pão sírio. O que o Frevo fez foi ampliar as opções, com recheios de salada, peito de peru, presunto, filé e outros que estão até hoje no cardápio", revela.

Com duas filiais, uma na rua Augusta, também dos anos 50, outra, no Shopping Iguatemi, fundada nos anos 90, o Frevo —ou Frevinho, como passou a ser carinhosamente chamado pelos paulistanos— faz 55 anos no dia 13 de agosto.

Para comemorar a data, será lançado um livro com fotos do restaurantes e histórias sobre o local contadas por Frizzo a Ignácio de Loyola Brandão. Veja abaixo, em primeira mão, trechos do livro.

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(...)

Se fosse verdade que a sexta-feira 13 dá azar, o Frevo teria fechado as portas na primeira semana de vida. Não só não fechou como ainda durou 3 mil semanas, ou seja, viveu e permanece saudável após 55 anos. Inaugurado no dia 13 de abril de 1956, ano bissexto, na esquina das ruas Oscar Freire com Augusta, uma temeridade para a época, o Frevo pegou e não largou. Ao abrir hoje o cardápio da Lanchonete da Cidade, super frequentada, da Alameda Tietê, você encontra uma curiosa indicação. Na parte referente aos beirutes, o concorrente recomenda que você vá ao Frevo, que tem o melhor sanduíche da cidade. (...)

No Frevo, vi o costureiro Dener, magro, pálido, requintado, comendo frugalmente a metade de um Beirute ao lado de Giedre Valeika, uma de suas top manequins (não se dizia modelo). No Frevo, encontrei o publicitário Livio Rangan, um habituê, que produzia megashows de moda para a Rhodia, discutindo com Sérgio Mendes o contrato para uma turnê na Itália e no Líbano em 1963.

O Frevo faz parte do imaginário gastronômico da cidade. Ele foi testemunha da várias épocas, do rock’roll dos anos 50, ao twist, hully-gullly, letkiss e chá-chá-chá dos anos 60, conheceu a bossa nova e a Jovem Guarda, passou pelo Tropicalismo, pelo Cinema Novo. Ali comeram e beberam Lennie Dale, Raul Cortez, os Dzi Croquettes, Dina Sfat e Paulo José, quando ainda namoravam e eram atores do teatro de Arena, a atriz Etty Frazer, do teatro Oficina, o ator Cláudio Marzo, pouco depois da estreia da peça "Andorra". (...)

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 “O designer do Frevo foi Antonio Cobal, arquiteto e decorador de Santos, que veio com seu parceiro, o suíço Morani, um homem de dinheiro. Estudaram o local, o espaço não era dos maiores, tudo devia ser bem encaixadinho,” acentua Clóvis Zanzini (um dos sócios de Geraldo Modesto de Abreu na fundação da lanchonete), “e foi preciso montar o cardápio para se saber o tamanho e a capacidade da cozinha”. Foi das primeiras lanchonetes da cidade com balcão e banquinhos, além das mesas. Até então o costume era comer de pé, como em botequim.

“Enquanto a reforma corria, Geraldão discutia o nome. Não queria, de modo algum, um nome americanizado, o inglês já começava a dominar o comércio. Nada de Dog-Dog, e etc..”, ressalva Roberto. “Ele procurava algo brasileiro.  Não se esqueça que meu padrasto tinha uma inclinação socialista, odiava a colonização cultural que vinha despontando. Um dia, depois de ler alguns artigos sobre o frevo, a dança pernambucana que estava comemorando 50 anos, aquilo ficou na cabeça dele. Frevo. Por que não Frevo? Era curto, sonoro, brasileiro, inspirava alegria, movimento, cor." (...)


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E enquanto as atenções estavam voltados para o fechamento do Frevo, um outro restaurante da cidade, também tradicionalíssimo, com mais de 80 anos de história, fechou as suas portas sem alarde: O Pasta e Vino, reduto de notívagos que funcionava 24 horas, na rua Barão de Capanema, nos Jardins. Os proprietários prometem reabrir em novo endereço.

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