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O pai que alimenta o filho com hambúrguer todos os dias

Beyond Meat
Ethan Brown trabalhava com células de combustível de hidrogênio antes de decidir se dedicar ao mercado de alimentos veganos Imagem: Beyond Meat

Anne Cassidy*

Repórter de Negócios da BBC News

12/09/2018 08h36

Aos 12 anos, o filho do executivo americano Ethan Brown come um hambúrguer praticamente todos os dias. Não costuma ser uma dieta que pais querem para seus filhos, mas Brown diz não se preocupar, porque os hambúrgueres vêm de sua própria empresa. E são feitos inteiramente de vegetais.

"Meu filho está comendo proteína limpa e nenhum colesterol. Ele está crescendo muito agora, quero que ele consuma essa proteína", diz o fundador da empresa de alimentos veganos Beyond Meat.

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Segundo Brown, de 40 anos, sua missão é redefinir a palavra "carne". Sua empresa faz hambúrgueres, salsichas e "iscas de frango" de proteína vegetal. Elas são formuladas para simular o gosto, a textura e a aparência de carne bovina, suína e de frango.

Até suco de beterraba é adicionado para dar ao hambúrguer uma aparência "sangrenta". Eles contêm proteína de ervilha, óleo de coco e amido de batata.

Os primeiros estoques do principal produto da empresa, o Beyond Burger, foram vendidos rapidamente após seu lançamento nos EUA em 2016, depois de uma reportagem positiva no jornal New York Times.

Hoje, mais de 25 milhões de hambúrgueres já foram vendidos. Em 2018, os produtos foram lançados no Reino Unido e em outros países europeus.

No entanto, o pesquisador David Wesley Silva, doutorando do Departamento de Alimentos e Nutrição da Faculdade de Engenharia e Alimentos da Universidade de São Paulo (USP), diz que é preciso tomar cuidado com o consumo excessivo de hambúrgueres, sejam eles de carne ou de vegetais.

"O formato hambúrguer, por mais que seja convencional e prático para o padrão do estilo de vida moderno, está associado ao formato de fast food. É preciso saber do que ele é acompanhado. Como a pessoa monta o sanduíche? Enche de condimentos? Quais os acompanhamentos?", disse à BBC News Brasil.

"É preocupante que um alimento ultraprocessado faça parte da dieta de uma criança com tanta frequência. Um dos pontos mais importantes da nutrição é a variedade. Poucos alimentos podem ser repetidos todos os dias."

De células de combustível a 'reconstrução da carne'

Antes de lançar a Beyond Meat em 2009, Brown trabalhava como desenvolvedor de células a combustível, que usam hidrogênio para produzir energia elétrica.

Apesar do potencial de diminuir as emissões de gás carbônico em veículos, o empresário diz ter pensado que sua contribuição para a sociedade seria maior se ele tentasse reduzir o impacto da criação de gado na emissão de gases estufa.

Brown trabalhou com cientistas da Universidade de Missouri para, segundo ele, "entender a carne e reconstruí-la pedaço por pedaço".

Beyond Meat
Produto tenta simular a cor, o gosto e a textura da carne animal - até suco de beterraba é usado para dar o aspecto do sangue Imagem: Beyond Meat

O primeiro produto que eles desenvolveram foram as "iscas de frango". Mas Brown disse não ter ficado satisfeito com as primeiras receitas.

"Conseguimos atrair os vegetarianos, mas não chegamos ao consumidor médio. Precisamos tentar de novo até chegar mais perto da carne real."

"Carne não tem mistério. É aminoácidos, lipídios, minerais e água", afirma o empresário.

"E se você pode entregar estas quatro coisas em uma arquitetura semelhante à de um músculo, por que não chamar de carne?"

Mas e o gosto? Críticos de comida, desde os profissionais até os blogueiros, se dividem. A maioria acha que os hambúrgueres veganos parecem inexplicavelmente com os de origem animal, mas alguns dizem que eles são muito diferentes.

A empresa, que começou com apenas 10 pessoas na cozinha de um antigo hospital, agora tem cerca de 200 funcionários, deve abrir uma segunda unidade de produção no Estado do Missouri e um laboratório de pesquisas em Los Angeles.

Entre seus investidores estão Bill Gates, os fundadores do Twitter Biz Stone e Evan Williams e o ator Leonardo DiCaprio.

Para Brown, no entanto, é importante que seu produto não fique conhecido como "carne falsa".

"Você não chamaria um celular de 'telefone falso'. É apenas um telefone melhor que uma linha fixa", argumenta.

Impossible Burger
Para especialista da USP, hambúrgueres de vegetais podem ser interessantes para atrair novos consumidores, mas a consumi-los sempre é uma armadilha Imagem: Impossible Burger

Produto com 'função temporária'

Para David Wesley Silva, da USP, produtos como o de Brown são importantes no mercado, especialmente para fazerem com que consumidores onívoros (que comem carne e vegetais) se interessem por dietas vegetarianas ou veganas.

Mas ele alerta para o risco de achar que, para adotar o estilo de vida da moda, os consumidores achem que basta substituir a proteína animal por um "semelhante vegetal".

"O hambúrguer é interessante por oferecer a opção para as pessoas experimentarem, atrair mais do público onívoro. Mas não é bom ficar deslumbrado com isso. Esse produto tem uma função temporária", afirma.

"Muitas pessoas se acomodam nessa etapa transitória e perdem o melhor da dieta vegetariana, que é consumir os alimentos da forma mais próxima do original."

Segundo o pesquisador, quanto mais processamento e mais modificações no produto, pior é o seu microbalanceamento de nutrientes. "Muitas vitaminas, durante os processos pelos quais o alimento passa, vão para o beleléu."

* Com reportagem de Camilla Costa, da BBC News Brasil em São Paulo.

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