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Cerveja: um milagre de muitos santos

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Hoje pode parecer contraditório, mas religião e cerveja têm um longo passado em comum Imagem: stock.xchng

Joana Santana

Da UOL, em São Paulo

02/10/2012 21h12

Uma empresa americana especializada em análise de dados realizou, em junho deste ano, um curioso levantamento para saber o que as pessoas “tuítam” mais, a palavra cerveja ou a palavra igreja. Eles mapearam cerca de 10 milhões de “tuites” e verificaram que deu igreja, mas por pouco: 17.500 contra 14.500. A proposta da pesquisa, cujo resultado foi divulgado pela CNN, é que esses conceitos são opostos entre si. E, a princípio, as pessoas parecem concordar com essa ideia.  

Olhando um pouco mais fundo, ou melhor, para trás, percebemos o contrário: cerveja e religião costumavam andar de mãos dadas desde o início dos tempos. De acordo com o documentário “Como a Cerveja Salvou o Mundo”, do Discovery Channel, o deus Rá, conhecido como Deus do Sol pelos antigos egípcios, era o criador da cerveja, fundamental não apenas ao longo da vida, mas também depois dela. Segundo o cálculo esculpido em um túmulo exposto no Museu da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, era preciso ser enterrado com mil jarros de cerveja para passar bem na eternidade.

Depois, ao longo da Idade Média, a religião foi fundamental para a evolução da cerveja, visto que os mosteiros das diversas ordens praticamente monopolizavam a produção. Foram eles que primeiro adicionaram lúpulo ao processo de fabricação, por exemplo. Conforme o estudioso Michael Jackson, no livro “Guia Ilustrado Zahar da Cerveja”, o primeiro registro histórico sobre as propriedades conservantes e aromatizantes do lúpulo sobre a cerveja é de Santa Hildegarda e data do ano 1.079. Moderninha, a freira beneditina alemã também é autora de livros sobre filosofia, química, biologia e medicina, e forneceu o primeiro relato escrito do orgasmo feminino.

Até a Igreja Católica organizar o processo de canonização, no século 10, os santos eram eleitos por apelo popular e livremente associados àquilo que os destacava. Esse pequeno detalhe fez da cerveja um milagre cheio de santos padroeiros. Só a Irlanda tem dois. Além do cada vez mais famoso São Patrício, há ainda a Santa Brígida, que é também uma das patronas do país. Segundo consta, a fundadora do mosteiro de Cill Dara, que depois deu origem à região de Kildare, transformou várias vezes água em cerveja para dar aos pobres e aos visitantes.

Além dos beneditinos como a Santa Hildegarda, monges de todas as ordens deram sua contribuição, como atestam marcas contemporâneas de cerveja como as alemãs Paulaner, Augustiner e Fraziskaner.  Os franciscanos, por sua vez, também têm seu santo padroeiro ligado à bebida. Santo Arnolfo, bispo de Metz, na França, teria multiplicado a cerveja para aplacar a sede dos devotos que levavam seus restos mortais em uma procissão.

Na Bélgica, o quase homônimo Santo Arnoldo é o padroeiro local. Ex-cavaleiro e fundador da abadia de Oudenburg, ainda de acordo com o “Guia Ilustrado Zahar da Cerveja”, criou um artefato feito de palha para filtrar a bebida e aprimorar sua qualidade. Além disso, colaborava com a boa saúde da população encorajando-a a tomar cerveja no lugar de água e justificando que seu consumo seria mais seguro – mesmo sem saber que o prodígio, no caso, é a fervura. Esta contribuição, no entanto, também é atribuída a Santo Arnolfo, o quase xará francês, o que só aumenta a confusão em torno da cerveja e seus padroeiros.  

Mas nesse relacionamento duradouro entre cerveja e religião também há lugar para o profano. Se de um lado temos até uma cerveja chamada “DeuS”, do outro dá para escolher entre rótulos de nomes sugestivos como a canadense Maudite, a holandesa Satan e as belgas Judas, Lucifer e Duvel, uma corruptela da palavra flamenga para diabo e cuja pronúncia correta é “dúv’l” e não “duvél”, segundo o “Guia”. Desta última, conta-se que foi um notório morador local que, durante uma prova oferecida pela cervejaria, em 1923, fez o diagnóstico preciso quando tomou uma amostra que eles tinham acabado de produzir: “é o Diabo em forma de cerveja”.

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