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Cerveja trapista: a abençoada e rara bebida feita por monges

Edu Passarelli
Privilgiada, a belga Achel está no seleto grupo dos sete mosteiros que produzem cerveja trapista no mundo Imagem: Edu Passarelli

Joana Santana

do UOL, São Paulo

12/10/2012 16h03

Você já deve ter ouvido falar nos monges trapistas, mas sabia que eles têm tudo a ver com cerveja? “As cervejas produzidas pelos monges trapistas são complexas, com sabores frutados, amadeirados e de personalidades distintas entre si”, descreve Aline Araújo, da Confraria Maltemoiselles e sommelier de cervejas.

A denominação ‘trapista’ refere-se ao outro nome dado à Ordem dos Cistercienses de Estrita Observância, uma congregação católica que, assim como tantas outras, obedece à Regra de São Bento. Começou a tomar corpo no século 17, com diferentes monastérios promovendo reformas internas no sentido de uma vida mais orientada ao silêncio, à renúncia e à obediência. Um dos princípios fundamentais dos trapistas é o lema beneditino ora et labora, “reza e trabalha”. E um desses trabalhos (graças a Deus!) é fazer cerveja.  

E não se trata de uma bebida qualquer. Comparando, dá para dizer que as trapistas estão para as cervejas como o champanhe para os espumantes. Elas estão protegidas sob o selo Authentic Trappist Product, regido pela Associação Trapista Internacional, que funciona como uma denominação de origem controlada. A exigência é tanta que atualmente, apenas sete mosteiros - dentre os quase 200 que a Ordem tem no mundo todo - se enquadram nos critérios estabelecidos em 1962, pela Corte de Ghent, para ter direito à distinção.

Raio X

Edu Passarelli
Muitas das cervejas trapistas, como a Westmalle Dubbel, a Chimay Triphel e a La Trappe Quadrupel, têm nomes que remetem a um processo de brassagem tipicamente belga, segundo o “Guia Ilustrado Zahar da Cerveja”. O método consiste em passar a água pelo mosto três ou quatro vezes, resultando em um produto bem mais forte na primeira passagem do que na última. Assim, uma cerveja tripla, por exemplo, seria três vezes mais forte que sua similar comum. E como na Idade Média era raro saber ler, eles gravavam os barris com uma cruz simples, dupla ou tripla para diferenciá-las.

Foto: Cervejas trapistas da belga Chimay

Segundo a associação, a cerveja trapista deve ser produzida no próprio mosteiro, diretamente por monges ou sob sua supervisão. E deve ter a qualidade sob monitoramento constante. A cervejaria precisa ser conduzida de acordo com a vida monástica e funcionar como suporte financeiro à manutenção da abadia e de suas atividades, não podendo visar ao lucro. Todas as marcas que obedecem a esses parâmetros são a holandesa La Trappe e as belgas Achel, Orval, Rochefort, Westvleteren, Westmalle e Chimay.

Mas este cenário há muito inalterado está para mudar. Segundo Marcelo Stein, diretor da Bier&Wein, responsável pela importação da La Trappe, o tradicional mosteiro austríaco de Engelszell, que já tem o selo trapista para produção de licores e queijos, terá a concessão expandida também para a sua cerveja, a Gregorius, já a partir deste mês. “Nós começaremos a trazer grandes lotes da Gregorius já a partir de janeiro, mas já fizemos uma primeira importação, em pequena quantidade, para satisfazer a curiosidade dos apreciadores”, revela ele.

Os mosteiros trapistas oferecem ainda outros produtos com selo de origem, como pães, queijos, biscoitos. Resultado disso é que costumam receber tantos peregrinos religiosos quanto cervejeiros. Grupos aos montes se organizam em verdadeiras procissões para conhecer seus edifícios medievais e, claro, suas cervejas sagradas. Inclusive brasileiros. Como o especialista Edu Passarelli, colunista do Especial Cervejas do UOL Comidas e Bebidas e proprietário da filial paulista do bar Aconchego Carioca, do Rio de Janeiro (RJ). Passarelli será o guia de um tour às abadias belgas que produzem as famosas trapistas, organizado pela agência de viagens gastronômicas Gouté, e previsto para acontecer em maio do ano que vem.

Ele, que já percorreu o tour por duas vezes, afirma que essa é uma viagem especial para os apreciadores porque reúne locais considerados míticos pelos entusiastas. “O roteiro passa por vilarejos e cidadezinhas belgas muito charmosos e com ótimos restaurantes. Além disso, por lá é possível beber algumas das melhores cervejas do mundo, bebidas muito raras ou servidas exclusivamente nos mosteiros”, explica. Faz bem ao corpo e satisfaz o espírito!

Para se aventurar
As cervejas trapistas são todas do tipo ale, mas podem variar em cor e teor alcoólico. Apesar de serem cercadas de tantas regras e tamanha aura de exclusividade, orbitam entre 5% e 11,3% de teor alcoólico e podem cair bem para qualquer paladar.

Para experimentar as três variedades de Westvleteren, talvez você tenha de dar um pulinho à Bélgica, mas as outras seis podem ser encontradas no Brasil, nas boas casas do ramo. “Elas não devem ser servidas muito geladas para se apreciar melhor seus diversos aromas; a temperatura ideal é entre 4°C e 8°C”, ensina a sommelier Aline.

Westmalle
Da Abadia de Westmalle, na região da Antuérpia, Bélgica. Tem a Dubbel, escura e com 7% de teor alcoólico; e a Tripel, clara e com 9,5%.

Chimay
Da Abadia de Scourmont, em Chimay, Bélgica. Tem a Red, acobreada e com 7% de teor alcoólico; a Triphel, dourada e com 8%,; e a Blue, escura e com 9%.

Rochefort
Da Abadia de Notre-Damme de Saint-Rémy, em Rochefort, Bélgica. Tem a '6', avermelhada, com 7,5% de teor alcóolico; a '8', escura e com 9,2%; e a '10', também escura e com 11,3%.

Orval
Da Abadia de Notre-Damme d’Orval, em Luxemburgo, Bélgica. Único dos mosteiros trapistas que produz apenas uma variedade, de cor âmbar e 6,2% de teor alcoólico.

Achel
Da Abadia de Notre-Damme de Saint-Benoît Achelse Kluis, em Hamont-Achel, Bélgica. Tem a Blonde, clara e com 8% de teor alcoólico; e a Bruin, escura e com 5%.

La Trappe
Da Abadia Onze-Lieve-Vrouw van Koningshoeven, na região de Tilburg, Holanda. Tem a Blond, clara e com 6,5% de teor alcoólico; a Dubbel, avermelhada e com 7%; a Tripel, âmbar e com 8%; a Quadrupel, escura e com 10%; e a Witte, clara e com 5,5%.

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