Receitas

Guia revela o melhor da culinária das favelas do Rio de Janeiro

Marcos Pinto/Divulgação
Adriana de Souza, a "moça da empadinha" do Complexo do Alemão: sucesso em "Salve Jorge" Imagem: Marcos Pinto/Divulgação

Carol Zappa

Do UOL, no Rio de Janeiro

15/06/2013 07h00

Cenário da última novela das nove, “Salve Jorge”, o Complexo do Alemão ganhou recentemente um teleférico que serve de transporte entre as principais comunidades do conjunto e virou ponto turístico, rivalizando em número de visitantes com atrações de peso como o Pão de Açúcar e o Corcovado.  

O Vidigal, também conhecido como “a favela dos artistas”, com um dos mais estonteantes visuais da orla da cidade do alto da Av. Niemeyer e que liga o Leblon a São Conrado, é palco de festas descoladas já há algum tempo.  Assim como a Laje do Michael Jackson, no Santa Marta, em Botafogo, que abriga uma estátua do Rei do Pop onde ele gravou o clipe da música  “They Don’t Care About Us”, em 1996.

O lugar recebe mensalmente dezenas de visitantes e moradores para uma concorrida roda de samba regada a feijoada. A chegada das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) também contribuiu para facilitar a circulação de cariocas e turistas pelas antes muitas vezes temidas comunidades.

O que nem todo mundo sabe, no entanto, é que esses lugares escondem verdadeiros segredos gastronômicos. É o que desvenda o pesquisador e diretor de cinema Sergio Bloch no recém-lançado “Guia Gastronômico das Favelas do Rio (Ed. Abbas Edições e ArteEnsaio, R$ 70). Ao rodar um documentário sobre as favelas recém-pacificadas  há cerca de três anos, Bloch saiu em busca de lugares bacanas para se alimentar e acabou descobrindo que é possível comer bem sem ter que descer ao asfalto.

Com textos e entrevistas de Ines Garçoni e fotos de Marco Pinto, o livro revela talentos culinários e delícias pelas quais vale subir o morro. E disso o trio entende: depois de mandar para as livrarias duas edições do “Guia Carioca da Gastronomia de Rua, eles percorreram becos, lajes e vielas de algumas das mais conhecidas favelas cariocas para compartilhar os melhores bares, restaurantes, biroscas e carrocinhas, levando em conta a boa comida, a higiene, o ambiente agradável e personagens interessantes.


Dos quase 100 estabelecimentos visitados, foram 22 os eleitos, em 11 comunidades. De alguns já mais conhecidos do público carioca, como o Bar do David, na Mangueira, segundo colocado de um importante festival de comida de botequim em 2012, ou a já célebre feijoada na laje da Tia Léa, no Vidigal, há também descobertas surpreendentes, pratos populares e requintados e figuras carismáticas.

Técnica francesa no Tabajaras; Sushi e carnes exóticas na Rocinha
Carne de javali, coelho, capivara, codorna, avestruz, rã, pato, jacaré... Tem de tudo no “freezer mágico” do recifense Glimário João dos Santos, como ele mesmo se gaba, em seu restaurante próximo à entrada da maior favela do Brasil, a Rocinha, pelo Largo dos Boiadeiros. Isso sem contar com os ingredientes “básicos”, como salmão, polvo, lula, dourado, linguado, camarão "VG" e lagosta. Apelidado de “Porcão da Rocinha”, em alusão à conhecida rede de churrascaria, a casa não tem nem cardápio. “O Glimário é criativo nos ingredientes e é do tipo ‘cozinheiro internacional’, capaz de fazer qualquer prato que o cliente pedir”, conta Ines, coautora do livro.

Seu repertório vai de de pato ao molho de vinho branco a coelho ensopado e camarão com arroz de açafrão, além de receitas mais comuns, como contrafilé e mocotó.  Ele prepara tudo na hora, sozinho, à moda antiga, na frente do cliente. Para acompanhar a refeição, o mestre-cuca conta com uma adega climatizada de onde saem vinhos, além de boas cachaças mineiras.

Perto dali, o paraibano Givanildo Pereira, o Gil, que chegou à Rocinha ainda bebê, comanda o melhor restaurante japonês da favela, segundo seus clientes: o Sushi Yaki . Fã de comida japonesa, o ex-oficial do exército trabalhou em diversos restaurantes antes de abrir o próprio negócio, há quatro anos. No salão refrigerado, que reúne uma clientela de bairros de fora da favela, o yakisoba de carne e frango "a preço justo" é o campeão de vendas.

Uma das maiores surpresas para a equipe foi o 48, no pequeno Morro Tabajaras, entre Copacabana e Botafogo. Tanto pela qualidade da comida como pela história de seus donos. Pilotado por dois cunhados cearenses, o cozinheiro Romero Moreira e o maître Augusto Alves, e por sua irmã Teresa, casada com Romero, o restaurante serve uma das costelinha de porco assadas mais saborosas da cidade, além de uma macia costela de boi e pratos como estrogonofe, peixe e carré de porco, acompanhados de um suculento baião de dois, salada e farofa.

  • Marco Pinto/Divulgação

    Tropeiro carioca, prato servido no Bar do David,
    no Morro Chapéu Mangueira


O trio trabalhou junto por cinco anos no restaurante do chef bretão Olivier Cozan, em Ipanema, e introduziu a técnica aprendida em pratos como a omelete de champignon e nos doces da pâtissière Teresa. O antigo patrão, aliás, é um dos clientes mais fiéis da casa, aberta em 2008 e que vende de 50 a 60 refeições por dia. “Não esperava encontrar por lá um ex-maître e um ex-cozinheiro de um chef como o Cozan”, confessa Ines. “O Augusto é extremamente agradável no trato, a cozinha do Romero tem um tempero especial e as sobremesas da Teresa são muito sofisticadas”, entrega.

 

Celebridades dos morros
"Cara de pau", como ela mesma se define com orgulho, Léa Silva -a Tia Léa- sai convidando pessoas famosas para conhecer sua casa no Vidigal, onde ostenta fotos ao lado de gente como rapper americano Snoop Dogg, a apresentadora Ana Maria Braga, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o músico Caetano Veloso. A maioria deles já provou suas receitas, que vão de feijoada a cozidos, frutos do mar, bolos e musses. “Autodidata, ela já cozinhou para muitas ‘madames’, como ela diz, por isso sabe fazer qualquer coisa, inclusive pratos supersofisticados. Mas seu forte mesmo é a rabada”, revela Ines.
Em sua laje com vista para as praias do Leblon e Ipanema, é recomendável reservar um lugar com antecedência, mas Léa garante que o pessoal fique à vontade: “Pode até sentar no meu sofá e ligar a televisão”, conta.

  • Carnes exóticas são o forte de Glimário João dos Santos, dono do "Porcão da Rocinha"

Outra figura popular é Adriana de Souza, a “moça da empadinha” da comunidade Nova Brasília, no Complexo do Alemão, que já apareceu na novela “Salve Jorge “ interpretando a si própria. Antes da “fama”, ela conta que já vendeu cosméticos, lingerie, revistas e até balas em sinais de trânsito. Agora, Adriana dá até autógrafos enquanto percorre as ruas vendendo seus quitutes: para se destacar, anuncia suas empadinhas de frango, camarão, queijo e bacalhau cantando paródias divertidas de letras do funk com a temática de suas iguarias.

Vice-campeão do concurso Comida di Buteco no ano passado com um croquete de feijão branco recheado de frutos do mar, David Vieira Bispo, 40 anos, ficou internacionalmente conhecido com seu tropeiro carioca, finalista do mesmo festival na edição anterior. Saiu até no jornal americano “The New York Times” e no francês “Le Figaro”.
Ex-feirante e pescador profissional de caça submarina, David comanda há 18 anos a bateria do bloco de Carnaval “Meu bem volto já”, e desde 2010 o mais famoso botequim de favela da cidade, o Bar do David, no Chapéu Mangueira, no Leme.

Além dessas e de outras delícias, o “Guia Gastronômico das Favelas do Rio” (em inglês/português) conta ainda a história das comunidades e dá instruções de como chegar a cada uma delas.

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