Receitas

Páscoa à mesa: conheça as comidas pascalinas de outros países

Ligia Nogueira

Do UOL, em São Paulo

13/03/2015 13h02

Diversos países estão, assim como o Brasil, celebrando a Páscoa nessa época do ano. São diferentes os significados míticos e religiosos que envolvem a data em cada nação e com eles, também variam as tradições e restrições para a comemoração. “Por ser uma data ligada à ideia de renovação da natureza e de vida nova, a celebração da Páscoa é fundamentada na comida”, conta Ricardo Maranhão, coordenador do Centro de Pesquisas em Gastronomia Brasileira da Universidade Anhembi Morumbi.

Reza a lenda que, originalmente, egípcios, gregos e romanos tinham a Páscoa como a festa de passagem do inverno para a primavera que trazia com ela o bom tempo, a abundância das colheitas e a fartura à mesa. Já para os judeus o Pessach, que significa passagem, simboliza a fuga do Egito em busca da terra prometida, em busca da liberdade.

Com o surgimento do cristianismo, algumas nações acabaram incorporando elementos da tanto da tradição pré-cristã, quanto do judaísmo. “A ideia da passagem continua, só que desta vez associada a Cristo que vai de humano à divindade”, explica Maranhão. E todas as mudanças impactaram nos hábitos alimentares.
 
Tradições à mesa
 
Originalmente, come-se peixe durante a semana que antecede a Páscoa em sinal de sacrifício. Já no domingo, é mais comum o consumo de carne de porco. “Mais recentemente, em países como Brasil e Portugal, começou-se a comer peixe também no domingo. O consumo de bacalhau é uma atualização”, diz. O uso do peixe se tornou muito comum por seu sabor marcante. “Com um pedaço pequeno é possível fazer uma refeição farta usando outros produtos mais baratos, como batata e couve”, anota Maranhão.
 
Entre os europeus, árabes e judeus, há o costume de comer cordeiro no domingo de Páscoa. “Esse hábito é carregado de referências cristãs. O cordeiro simboliza o próprio Cristo e também os sacrifícios que eram feitos com o animal”, explica Sandro Dias, professor de história da gastronomia do Centro Universitário Senac  - Campus Águas de São Pedro.
 
O ovo de Páscoa, presente nas comemorações em diversos países, remete à fartura e à prosperidade, à vida que se renova. “Desde o século 18 na França, há uma tradição de limpar o conteúdo dos ovos de galinha e recheá-los com chocolate”, diz o professor. “O coelho, que também remete à fertilidade, acabou virando símbolo de abundância na Páscoa”, acrescenta.
 
Confira a seguir os principais alimentos servidos na Páscoa em diferentes países:
 
Alemanha
Na Alemanha a Páscoa coincide com a chegada da estação das flores. A palavra “ostern” (páscoa, em alemão) vem de “ostara”, deusa germânica da primavera. Além de ovos de chocolate, os alemães celebram a data com ovos de galinha, que representam a renovação. Eles são cozidos e depois pintados à mão pelas crianças. No domingo de Páscoa as estrelas são as osterzopf, roscas que podem ser servidas com ovos cozidos, e a osterlamm, uma massa em forma de cordeirinho.
 
Colômbia
Na Colômbia, há uma forte tradição católica e o jejum é respeitado. A principal diferença em relação ao Brasil, segundo o chef Dagoberto Torres, do restaurante Suri, de São Paulo, é que os colombianos não interpretam a Páscoa como uma ocasião para reunir a família e celebrar em casa, e sim para ir à igreja e participar de cerimônias religiosas. No lugar do bacalhau, peixes como o pintado fazem às vezes de prato principal. “Ele é cozido com tomates, cebolas e finalizado com leite fresco”, diz o chef. “No café da manhã é comum tomar um caldo feito com a cabeça do peixe, que os colombianos acreditam trazer mais energia para o dia.”
 
Itália 

Os italianos deixam de comer carne durante toda a quaresma, que começa depois do carnaval e vai até domingo de Páscoa. Eles não têm o hábito de comer bacalhau na Sexta-Feira Santa. Neste dia, o prato principal é peixe ou a torta pascalina, feita no forno com alcachofras (muitos usam espinafre ou escarola), arroz e ovos. O restauranteur Giancarlo Bolla, falecido em 2014, afirmava que no país a tradição era ter sempre no almoço de domingo, o cordeiro. O prato teria a ver com a história do agnus dei, ou 'cordeiro de deus' –, costume herdado da Páscoa judaica que simboliza a ressurreição. Além dos ovos de chocolate, outro doce tradicional no país é a colomba pascal, feita com uma massa parecida com o panetone, e que leva frutas, nozes e amêndoas.
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França 
Assim como na Itália, o costume de comer cordeiro no domingo de Páscoa é bastante comum na França. Há também o gateau de paques, um bolo assado em forma de cordeiro, que também simboliza Jesus. No entanto, o chef Emmanuel Bassoleil, do Skye, de São Paulo, diz que não há um prato típico para a data. “Entre os franceses, a Páscoa é uma comemoração mais focada na família”, afirma. “No domingo de Páscoa, as pessoas cozinham ovos, pintam suas cascas e os escondem no jardim, como se o coelhinho tivesse passado. E as crianças ganham muitos chocolates.”
 
Líbano 
Não há celebração de Páscoa no Líbano sem o maamoul, um bolinho feito com massa de semolina, água de rosas e de flor de laranjeira que pode ser recheado com nozes, pistache ou tâmaras. “As donas de casa preparam e dão de presente nesta época do ano”, diz Helen Edde, uma das sócias do restaurante Balila, de São Paulo. O formato do doce, semelhante a uma esponja, representa a esponja com vinagre entregue a Jesus durante a crucificação. A parte de fora, sem açúcar, representa a morte de Cristo. Já o recheio, que é doce, remete à ressurreição. Os maamouls são preparados na Sexta-Feira Santa, assados no sábado e saboreados no domingo, dia em que se prepara também um carneiro, assado por sete horas.
 
Peru 
Os peruanos seguem a tradição católica que veio com os espanhóis e costumam comer bacalhau –servido desfiado, com grão de bico– ou o pescado sudado, peixe de água salgada feito no vapor. Os frutos do mar também têm destaque na mesa durante a Páscoa. “É comum preparar pratos como arroz com mariscos, ceviche e caldeirada”, conta a peruana Veronica Goyzueta, vice-presidente da associação dos correspondentes estrangeiros no Brasil e proprietária do Tubaína Bar, em São Paulo. “A sobremesa pode ser um suspiro limeño –doce de leite com merengue por cima e um toque de vinho do porto polvilhado com canela em pó – ou um mingau feito com milho roxo conhecido no Peru como mazamorra morada.”
 
México 
“No México a família se reúne ao redor da mesa e o menu é festivo, mas não temos pratos especiais, até porque as comidinhas mais provocadoras surgem numa data improvável que é na quinta anterior, quinta de luto”, conta a chef mexicana Lourdes Hernández-Fuentes. Neste dia manda a tradição que se visite sete igrejas, a chamada “visita das sete casas”. “Vendedores de comidas fazem uma feira oferecendo milho assado, gorditas [bolinhos] de milho embrulhadas em papel de seda colorido, pamonhas sem carne, tacos, peixes feitos no carvão... É uma noite entre o luto ancestral e os cheiros que falam de vida, muita vida.”
 
Portugal 
O bacalhau é a estrela da cozinha portuguesa não só na Páscoa, mas o ano inteiro. “É um produto tão versátil que permite inúmeras receitas”, diz Vítor Sobral, chef do Tasca da Esquina, de São Paulo, e autor do livro “As Minhas Receitas de Bacalhau: 500 Receitas” (Senac). “Durante a Semana Santa geralmente não comemos carne, mas quem não liga para a tradição religiosa costuma preparar assados como o folar, um tipo de empadão recheado de frango. As amêndoas de páscoa, cobertas com açúcar ou chocolate, são consumidas na ocasião”, conta Sobral.
 

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