Receitas

Carioca cozinha feijoada para gringos e faz fama em site para viajantes

Estefani Medeiros

Do UOL, em Berlim

28/04/2015 09h00

Do corredor dá para sentir o cheiro. O aroma de feijão cremoso e tempero caprichado que reconhecemos das panelas das avós conduz até o apartamento com vista para o Cristo Redentor e desperta a curiosidade dos vizinhos no caminho. O ex-comissário de bordo Alessandro Francês se prepara para receber treze convidados - para alguns deles, cozinhará pela primeira vez.

Uniformizado com uma dólmã preta, Francês é desses que fala de comida até te dar água na boca. Liga o som ambiente enquanto aguarda ansioso o primeiro toque da campainha: um estranho em busca de clima acolhedor e boa comida. O encontro é promovido pelo site Eat With (www.eatwith.com), que tem como proposta fomentar cultura e gastronomia local entre viajantes, unindo pessoas de diferentes partes do mundo em volta de uma mesa de jantar.

O Eat With foi criado durante uma viagem de férias do fundador Guy Michlin à Grécia. Através de amigos, o empreendedor israelense descobriu uma família famosa pelo tradicional spaghetti com almôndegas cobertas por queijo feta fresco. Além de uma refeição farta e uma garrafa de licor, Michlin ganhou dicas interessantes da cidade e despertou para uma nova forma de viajar. "As armadilhas criadas para turistas tiram a autenticidade e o toque pessoal que cada pessoa cria em um prato", explica em entrevista ao UOL

No Brasil, o chef carioca é o principal anfitrião da primeira comunidade de restaurante em casa, que hoje permite que um turista fuja do roteiro senso comum e coma a massa preparada por uma nonna na Sicília ou aprenda a fazer uma paella com um arquiteto espanhol que cozinha como hobby. 

Divulgação/EatWith
O anfitrião carioca recebe os turistas com champanhe na mureta da Urca, de frente para o Cristo. Durante o caminho a pé até o apartamento do chef, ele vira um guia da cidade Imagem: Divulgação/EatWith

Para receber jantares com o Eat With, o brasileiro -- que participou do reality show de Olivier Anquier, o "Cozinheiros em Ação" -- passou por uma curadoria. "Não existe uma investigação rigorosa na casa, o que nos ajuda a manter a experiência o mais autêntica e agradável possível", comenta. 

Mas a equipe do site que promove esse intercâmbio gastronômico tem lá seus critérios. "Olhamos o quão original o espaço é, o quanto a comida é boa e quão apaixonado é o cozinheiro. Só porque alguém é um grande cozinheiro, não significa que será um anfitrião excepcional. Nossos pré-requisitos estão relacionados a paixão por cozinhar e entreter. Um bom anfitrião é dinâmico, entusiasta. É a fórmula que mantém a experiência mágica", esclarece Michlin.

Para cobrir eventuais danos na casa, o Eat With disponibiliza um seguro e o anfitrião pode barrar visitantes, caso se sinta inseguro. "Em todos esses jantares nunca tive problema", diz Alexandre. "Tem que fazer essa brincadeira com confiança. Mas uma vez não me senti à vontade com a abordagem de um senhor e barrei. O máximo de problema que tive foi um turista americano que entupiu meu banheiro e tive que chamar os bombeiros no dia seguinte", conta entre risos. 

No Brasil, formato faz mais sucesso entre profissionais

Divulgação/EatWith
Uma das sobremesas oferecidas por Alessandro em sua casa. Para o cardápio, ele pede sugestões e se informa sobre restrições dos visitantes Imagem: Divulgação/EatWith

Rio de Janeiro e São Paulo são as cidades com mais cozinheiros ativos na plataforma. No Rio, a maior parte do público é estrangeiro, com maior número de jantares realizados durante a Copa do Mundo. Em São Paulo, a "gourmetização" de pratos nacionais atrai os paladares de quem busca preço justo e clima intimista.

Para Alexandre, que recentemente deixou de atuar como comissário de bordo para trabalhar em casa, a liberdade da plataforma permite que ele cresça como autônomo. "Hoje vivo dos meus jantares. Isto está me abrindo a porta para o trabalho de personal chef, com jantares de aniversário, eventos fechados para seis pessoas. Não faço buffet, faço um jantarzinho que vai da entrada ao café com madeleine", comenta. "Parei de procurar o dinheiro e estou procurando a alegria de fazer o que gosto. Abro a porta da minha casa para pessoas que nunca vi na vida, mas estou muito feliz com isso, gosto de receber."

Em São Paulo, a dupla de amigos André e Lucas se conheceu em um curso de gastronomia. Lucas, que trabalha como assistente no D.O.M, de Alex Atala, diz que a plataforma lhe dá a oportunidade de experimentar novos pratos e ser criativo. "Por aqui recebemos muitos brasileiros em busca de uma cozinha diferente. Temos um espaço legal no bairro Santa Cecília e gostamos de experimentar novos pratos. Fazemos versões sofisticadas e mais leves da comida brasileira", conta André.

Divulgação/EatWith
Prato da dupla André e Lucas é um peixe com migalhas de pão, purê de banana e molho cítrico Imagem: Divulgação/EatWith

Mesmo que no Brasil este tipo de site tenha se desenvolvido entre profissionais da área, pelo mundo as propostas são variadas. Na França, o estudante parisiense Alexis Marot criou noites boêmias para até seis pessoas. "Comecei a cozinhar por causa da minha família. Meus pais sempre cozinharam uma comida fresca e caseira. Cozinhar não é só comer, é uma forma de viver a vida, de compartilhar e aproveitar seu tempo com outras pessoas. Em dezembro vou receber a comemoração de um aniversário de 20 anos de casamento", conta à reportagem. 

Ambiente acolhedor sem estacionamento ou filas

"Quantas horas você passa jantando em um restaurante?", questiona Alessandro. "Aqui muitas vezes os jantares duram até quatro horas, o pessoal fica aqui até 1h, é um clima entre amigos. Não tem 10%, não precisa pagar estacionamento. As pessoas trazem os próprios vinhos, no fim um está tomando o vinho do outro. O Facebook deixa as pessoas muito solitárias, aqui elas deixam a rede social de lado pra se conhecer na vida real."

Para André, o mais bacana do serviço é a oportunidade de conhecer gente nova e ter uma relação mais próxima com o visitante. "No restaurante, o garçom vem, deixa o prato e acabou. Gostamos de explicar as origens dos ingredientes, contar um pouco da história do prato no Brasil". 

Divulgação/EatWith
O jovem cozinheiro francês aprendeu a gostar de alimentos frescos e a cerimônia do jantar junto com a família, na infância Imagem: Divulgação/EatWith

Uma desvantagem mencionada pelos entrevistados é a ausência da versão do serviço em português (hoje está em inglês e espanhol) e a necessidade de ter um cartão internacional para pagar. As refeições custam entre US$ 20 e US$ 45, e podem incluir entrada, prato principal, drinques, sobremesa e cafezinho. Os criadores mencionam que estão trabalhando em melhorias nas opções de pagamento e prometem a tradução para o segundo semestre de 2015.

Comunidade promove estilo de vida 'slow'

Com base na economia colaborativa, a ideia de improvisar um restaurante em casa tem mudado o jeito como as pessoas comem. Tendência antecipada pelo jornal "The New York Times" no início de 2014, o food sharing tem crescido e ganhado cada vez mais adeptos. A combinação dos movimentos slow food e slow travel tem como proposta unir as pessoas uma refeição por vez.

Nos últimos dois anos, o Eat With cresceu e hoje está disponível em noventa cidades com mais de 500 anfitriões promovendo 100 tipos de cozinhas diferentes. Seguindo a tendência, além do serviço israelense, o americano Eat Feastly (www.eatfeastly.com) facilita jantares nas fazendas onde os ingredientes são colhidos frescos da horta.

Se a família exagerou na quantidade, no Meal Sharing (www.mealsharing.com) é possível evitar o desperdício convidando algum viajante para compartilhar a refeição. De São Francisco, o Cook App (www.cookapp.com) reúne receitas caseiras que passaram por gerações de famílias e ajuda aproximar amigos que tem a comida como hobby. 

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