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Em Londres, refeitório social oferece pratos criados por chefs premiados

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O Refettorio Felix, parte do projeto "Food for Soul" do renomado chef italiano Massimo Bottura Imagem: Divulgação

2019-06-14T11:02:40

14/06/2019 11h02

Pessoas em situação de vulnerabilidade social em Londres podem desfrutar de um menu de alta gastronomia, frequentemente servido por chefs premiados pelo prestigiado Guia Michelin, em um refeitório social.

O Refettorio Felix, parte do projeto "Food for Soul" do renomado chef italiano Massimo Bottura - que também é um dos criadores do Refettorio Gastromotiva, no Rio de Janeiro -, acolhe diariamente dezenas de pessoas que querem um pouco de calor humano e companhia, e que recebem, além de afeto, banho, barba feita, terapia e cursos para prosperar na vida.

Michel Roux, do Le Gavroche; Brett Graham, do The Ledbury; Angela Hartnett, do Murano; e Clare Smyth, do Core, são alguns dos grandes chefs que oferecem voluntariamente seus talentos no refeitório, que fica na zona oeste da cidade e onde o cardápio é elaborado todo dia com base em alimentos bons, mas doados por mercados e centros de abastecimento por terem pequenos defeitos.

Localizado no distrito de Earl's Court, o espaço é gerenciado pelo St Cuthbert's Centre, uma organização beneficente que existe há 30 anos, mas que há dois foi reformado para acomodar a ideia de Bottura.

"Sempre tivemos banco de alimentos, mas desde que passamos a oferecer estes menus não temos sobras. Muitas pessoas vêm comer, e já temos lista de espera tanto de chefs quanto de voluntários para servir as mesas. Qualquer pessoa necessitada pode vir aqui e será tratada com respeito. Ofereceremos três pratos e um café, como se estivesse em um restaurante de luxo", disse, sorridente, à Agência Efe o diretor do St Cuthbert's Centre, Alistair Kingsley.

No dia da visita da Efe, os fogões eram comandados pelo chef argentino Martín Milesi, que pensou em um menu para aproveitar os quilos de maçã, tomate, abacate, frango e arroz doados por grandes redes de supermercados.

"Imediatamente sabíamos que íamos fazer de sobremesa uma torta de maçã com um creme batido simples e gostoso", contou o chef.

Com os tomates super maduros, ele e a equipe criaram uma sopa fria com cubos de melancia temperada de entrada. Como prato principal, frango macerado e guisado com ervas.

Ao meio-dia, os primeiros interessados começam a chegar. Eles são recebidos um a um na porta para garantir que ninguém entrará com drogas ou bebida alcoólica, proibidos no lugar.

Alguns idosos solitários e muitas pessoas sem-teto do Leste Europeu - que não encontraram emprego ao chegar a Londres e não recebem benefícios sociais - se sentam em mesas longas, nas quais grupos de voluntários servem o menu. Antes, todos puderam tomar um banho e, embora em um primeiro momento eles tenham o semblante triste, à medida que começam a comer vão levantando o olhar e relaxam. No café, alguns até sorriem.

Entre as pessoas que procuram "companhia" está a britânica Jean Usher, uma ex-secretária, de 80 anos, e que quase todo dia vai ao Refettorio Felix para se encontrar com a amiga Fidela Ortega. A filipina, de 70 anos, depois de fugir de um marido violento, não tem família em Londres.

"Aqui temos muitas atividades, como costura, arte e clube de leitura, e também desfrutamos de refeições especiais", disse Fidela.

Andrew Ank, que tem 61 anos, já foi dependente químico. Hoje, ele trabalha em mercadinhos e vai ao refeitório para fugir do estresse urbano. No celular, ele coleciona fotos dos chefs e dos pratos que já passaram por lá.

"Aqui, aprendemos o vocabulário da cozinha e descobrimos coisas novas. Um vez, três chefs com estrelas Michelin cozinharam aqui ao mesmo tempo e eu pensei: estou melhor que a Rainha Elizabeth", contou, bem-humorado.

John Swaby, de 40 anos, é reticente em falar de sua história, mas confessou que foi expulso de casa por seu parceiro. Sem lugar para morar, dinheiro ou emprego, acabou na rua.

"Poder comer aqui é maravilhoso", resumiu.

Depois do ápice, uma roda de aplausos, vários deles tiram um cochilo em um cantinho da sala, antes de se aventurar novamente nas ruas londrinas.

Além de ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade social, o Refettorio Felix serve de plataforma para empreendedores como Milesi, que planeja abrir o seu próprio restaurante em Londres.

"Para os chefs também é um desafio. Às 7h30 o carregamento chega. Então, escolhemos os ingredientes, decidimos o menu e às 12h30 precisamos estar servindo 70, 80 pessoas ao mesmo tempo", disse o diretor do St Cuthbert's Centre.

Para o chef do dia, a conexão é imediata.

"Ver a expressão das pessoas que comem aqui é muito diferente de ver um cliente. Coisas muito lindas acontecem dentro da gente", disse ele à Efe.

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